Paloma Coelho

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Fora de mim, Martha Medeiros

Um pedacinho do livro FORA DE MIM , de Martha Medeiros:

Eu sabia que terminaríamos, eu sabia que era uma viagem sem destino, sabia desde o início e não sabia, não sabia que doeria tanto, que era tanto, que era muito mais do que se pode saber, ninguém pode saber um amor, entender um amor, tanto que terminou sem muito discurso, foi uma noite em que você quase pediu, me deixe. Ora, pra que me enganar: você realmente pediu, sem pronunciar palavra, você vinha pedindo, me deixe, olhe o jeito que te trato, repare em como não te quero mais, me deixe, e eu, de repente, naquela noite que poderia ter sido amena, me vi desistindo de um jantar e de nós dois em menos de dez minutos, a decisão mais rápida da minha vida, e a mais longa, começou a ser amadurecida desde o dia em que falei com você pela primeira vez, desde uma tarde em que ainda nem tínhamos iniciado nada e eu já amadurecia o fim, e assim foi durante os dois anos em que estivemos tão juntos e tão separados, eu em constante estado de paixão e luto, me preparando para o amor e a dor ao mesmo tempo, achando que isso era maturidade. Que idiota eu sou, o que é que amadureci? Nada, nem a mim mesma, jamais deixei de ter 10 anos, nem quando tive 30, nem quando fiz 40. Nunca tive idade, ela de nada me serviu, ser lúcida sempre foi apenas uma maneira de parecer elegante, uma estratégia para a convivência .
Não sei se as pessoas choram de forma diferente umas das outras, eu choro contraída, como se alguém estivesse perfurando minha alma com uma lâmina enferrujada, choro como quem implora, pare, não posso mais suportar, mas o insuportável é uma medida que nunca tem limite, eu chorei no domingo, na segunda, na terça, em várias partes do dia e da noite, um choro de quem pede clemência, de quem está sendo confrontado com a morte, eu estava abandonando uma vida que não teria mais, eu sofria minha própria despedida, morte e parto, eu tinha que renascer e não queria, não quero, sinto que caí num vácuo, perdi a parte boa da minha história, e não quero outra, enquanto choro penso que se alguém me visse chorar dessa maneira me salvaria, prestaria socorro, chamaria uma ambulância, eu nunca vi você chorar,você alguma vez chorou por mim, você sofre a minha ausência, sente minha falta?
Que faço com o aparelho antigo, aquele lotado de torpedos que nunca apaguei, em que você dizia que nunca havia amado ninguém como amava a mim, e nossas brincadeiras, e os "bom dia, linda" e os "boa noite, amor" e todos os nossos segredos. Faço o quê com o aparelho antigo, com o aparelho que registrou todos os nossos telefonemas intermináveis, dou o mesmo fim que dei à sua escova de dente?
Mas isso eu não digo pra você, eu adoraria te encontrar e te dizer os piores desaforos, te chamar de tudo, berrar os palavrões mais inqualificáveis, abalar teus brios, mas não faço nada disso, agora fico em silêncio tal como você, os dois manipulando um ao outro com a quietude, apostando num desaparecimento que sempre alimenta interrogações, você tem vontade de me procurar? Quem de nós dois vai resistir mais tempo? Quando não desejo você morto, alimento a fantasia de que você seria capaz de assaltar um banco para ficar comigo outra vez. Não sei por que ainda considero importante que você me guarde na sua memória afetiva, se eu mesma já não me dou a mínima.
Afora a atualização pormenorizada da sua vida afetiva, ela deixou escapar algo que eu já suspeitava, mas não tinha certeza. Eu sabia que havia um troço esquisito em você que afetava a nossa relação, mas esse distúrbio é tão inédito pra mim que não consegui diagnosticar, ou talvez eu tenha preferido fazer de conta que tudo em você era autêntico e que a insana era eu, ao menos assim eu poderia repartir a conta do estrago e tentar salvar o que eu não queria que se rompesse, foi assim que passei dois anos me iludindo: está tudo caótico, mas tudo bem, a paixão é desse modo, eu apenas não estou acostumada, apenas isso, mas vou me acostumar, todo mundo diz que amar desse jeito transtornado
é normal.Não era. 

8 comentários:

  1. Aiii...Me deu um aperto no coração ler este texto...Eu sempre guardo os torpedos, e isso me dá um medinhoooo.

    Tudo bem?

    Beijos e um ótimo final de semana!

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  2. aiiii Que bom!

    Sei bem o que é também ;(

    Beijos ;)

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  3. oie, simplesmente amo Martha Medeiros.
    bjus e bom findi de semana p tu.

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  4. Oi miga ,passando pra desejar ótimo findi semana...bjim Dê

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  5. oi
    ótimo texto, e verdadeiro rs
    obrigada pelo selinho no post anterior viu
    =]

    beijooooooos

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  6. Olá, vim retribuir sua visita. Vc ainda é muito nova e tem uma vida inteira pela frente. É só se concentrar nos seus objetivos e não desistir.
    Abraço!

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  7. Oi, linda!

    Sei lá, parece que todo término de relacionamento quando um dos dois ainda é apaixonado é crítico.
    Espero que seja só um texto escolhido aleatoriamente, que não tenha nada a ver com você e seu amor.

    Bjus

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